ENTREVISTA: “Estou pronto para qualquer missão na CLDF”, diz Robério Negreiros
Em busca do 5º mandato na Casa, deputado reivindica maior participação do setor produtivo
Entrevista de Tácido Rodrigues, publicada originalmente pelo Jornal Brasília Capital em 24/09/2026, às 15h55. Fotos: Divulgação e Luã Tomasson/Brasília Capital.
O deputado distrital Robério Negreiros (Podemos) defende uma atuação mais ampla na Câmara Legislativa, com foco na geração de emprego e renda, qualificação profissional, inclusão de pessoas com deficiência, transporte público e causa animal. Ao falar sobre seu futuro político, não descarta disputar a presidência da Casa. “Estou pronto para qualquer missão”, garantiu, nesta entrevista ao Brasília Capital. Em busca do quinto mandato, Negreiros reivindica maior participação do setor produtivo na CLDF, diz ser favorável a uma nova licitação para as empresas de ônibus e cobra investimentos no transporte sobre trilhos. Na área social, destaca programas de qualificação profissional e medidas voltadas às pessoas com deficiência e às mães atípicas.
O senhor tem uma atuação forte na geração de emprego. O que mudou nessa área nos últimos anos?
Há seis anos, a gente tinha uma Secretaria do Trabalho tímida. Eu tive a oportunidade de indicar o secretário como um desafio. Hoje, ela é uma das maiores secretarias do GDF, porque se fundiu com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. De um orçamento de R$ 20 milhões, passou a ter R$ 320 milhões por ano. A gente criou o Renova-DF, em que a pessoa tem qualificação na construção civil, com instrução do Senai, recebe um salário-mínimo durante três meses e, ao mesmo tempo, recupera equipamentos públicos das cidades. Foram milhares de equipamentos recuperados em todas as Regiões Administrativas.
O programa tem algum componente social?
Tem. Além da qualificação profissional, ele atende cotas para pessoas com deficiência, moradores em situação de rua e mulheres vítimas de violência doméstica. Agora colocamos uma inovação para o próximo ciclo, que são as mães atípicas. É uma parcela que está muito organizada e que precisa de oportunidades. Em alguns casos, o programa tirou pessoas de uma situação de isolamento e ajudou a criar convivência com outras pessoas.
Qual é a principal função de um deputado distrital?
Fazer o básico, que é segurança, educação e saúde. Mas tem que fazer algo a mais. O nosso algo a mais é participar também das pequenas infraestruturas, da qualificação profissional, da geração de emprego e renda e de outras causas, como cuidar das pessoas com deficiência (PcD). O mandato tem que ser plural. Ficar só naquele feijão com arroz, a população não aguenta mais só aquele básico para qualquer político.
Vê como avanços as obras viárias realizadas no DF?
Evidente que sim. Desde o início do governo Ibaneis, com a Celina como vice, foi uma gestão de muitas entregas e obras. O Túnel Rei Pelé, o viaduto do Recanto das Emas e o do Jardim Botânico são obras de grandes proporções. Mas também existem obras pequenas que são importantes, porque dão impacto para a sociedade, como lâmpadas de LED e pavimentação de ruas.
Qual é, na sua visão, a principal prioridade para a pessoa com deficiência?
Primeiro, a inclusão. As escolas especiais são importantíssimas porque existem deficiências mais severas que precisam de um cuidado especializado. Mas a grande maioria das pessoas com deficiência pode estar em escolas que não são especiais, se essa for a escolha dos pais. Isso gera inclusão, empatia, conhecimento e socialização.
Negreiros: “A política me ensinou a entender melhor a realidade das pessoas com deficiência e com síndrome de Down. Inclusão não deve ser apenas da boca para fora”
O que falta para essa inclusão funcionar na prática?
É preciso cobrar investimento do Estado em monitores. Não adianta colocar uma criança com deficiência em uma escola regular se você não tem o mínimo de suporte. E esse suporte não serve apenas para a deficiência. Existem crianças com TDAH ou superdotação que também precisam de acompanhamento. Um professor não consegue cuidar de 40 crianças ao mesmo tempo e dar uma qualidade efetiva para todas.
O que fez nos últimos 4 mandatos nessa área?
Das minhas 104 leis, 20 são específicas para PCDs. Uma que é muito especial para mim é a Lei Lia, que surgiu depois que vi uma reportagem sobre uma menina com síndrome de Down. A mãe contou que estavam cobrando duas mensalidades porque a filha tinha deficiência e precisaria de monitor. Fizemos uma lei que proíbe qualquer tipo de sobretaxa em matrícula ou mensalidade de ensino em razão da deficiência.
Há outras iniciativas?
A carteirinha do autista e o Cordão Girassol aqui no DF também são de nossa autoria. A gente vai aprendendo com a causa. Quando entrei na política, usava termos que hoje sei que são inadequados. A política me ensinou isso. Hoje a gente entende melhor a realidade das PcD e a importância de uma inclusão que seja efetiva e não apenas da boca para fora.
A causa animal também aparece no seu mandato. Como trabalha esse tema?
Eu defendo esta pauta de verdade. Não fico me vangloriando de fazer isso só em época de eleição. Tenho cinco cachorros e quatro cisnes em casa. Minha filha ama os animais e sempre me cobra. Temos leis relacionadas à causa, como a previsão de multa para quem não socorrer um animal em caso de atropelamento e a Semana da Cinomose [doença viral que afeta principalmente cães].
Em relação ao transporte público, o senhor seria favorável à privatização do metrô?
Falar que é favorável ou não à privatização sem estudo prévio é algo que não dá para fazer. É muito complexo. Não estou dizendo que sou contra. Se for para melhorar, mas sem estudos comprovando, fica difícil falar isso agora.
Então, como melhorar o serviço para a população?
Os vagões são da década de 1990. Precisamos de investimento. A bancada federal conseguiu R$ 690 milhões do Ministério das Cidades para a compra de novos vagões. Também existe investimento para a expansão do metrô de Samambaia. Brasília precisa priorizar o transporte sobre trilhos, porque o trânsito está ficando complicado.
E os ônibus?
Sou favorável a uma nova licitação. Quando o contrato foi feito, era uma realidade diferente. A tarifa técnica é complexa e está havendo muito desperdício de recursos. O próprio contrato pode exigir determinadas coisas das empresas que não seriam necessárias e que acabam onerando o serviço.
Defende mudanças na política de gratuidade no transporte?
A gratuidade tem que chegar para quem realmente precisa. Hoje nós temos gratuidade universal para todo estudante da rede privada. Sei que é um tema polêmico, mas o dinheiro do Estado não é infinito. Esse recurso precisa chegar às pessoas mais carentes, que não têm condição.
Quem estuda em escola particular deveria ficar de fora?
Pode existir exceção. Se o estudante da rede privada tiver Fies, por exemplo, poderia receber. O que precisamos é olhar para a finalidade do benefício. Esse dinheiro público poderia estar atendendo mais pessoas.
Acabaria com o benefício?
Não. O passe livre é muito importante para quem precisa estudar e fazer qualificação profissional. Uma pessoa desempregada, por exemplo, como vai fazer uma qualificação profissional se não tiver o passe livre? Por isso sou favorável à gratuidade para quem realmente precisa.
O senhor busca o quinto mandato. Como responde a quem associa muito tempo na vida pública à chamada “velha política”?
Eu não concordo. Por um detalhe: entrei na política muito jovem e, a cada mandato, venho me aperfeiçoando e deixando legado. Quem pesquisar minhas redes sociais vai ver que, desde 2010, existe um trabalho contínuo, principalmente na geração de emprego e renda e, nos últimos anos, na qualificação profissional. Claro que a política não é eterna. Eu estou deputado, não sou deputado. E acho que ainda posso contribuir para melhorar a vida das pessoas. Porque o deputado distrital tem uma proximidade muito grande com a sociedade. É uma função de sola de sapato, de conversar com as pessoas, fazer reuniões e receber críticas.
O que considera mais urgente para a atividade empresarial?
Fazer com que as empresas daqui não saiam para Goiás ou Minas, e criar condições para trazer mais empresas para o DF. A Câmara tem uma representação plural. Tem servidor, enfermeiro, sindicalista. Isso faz parte da democracia. Mas o setor produtivo, que está diretamente ligado à geração de emprego e renda, deveria ter mais representantes entre as 24 cadeiras. Hoje, se tivermos dois ou três, é muito. É preciso entender esse setor, que é quem gera emprego e renda, para que o governo não crie obstáculos e também possa fomentar a atividade econômica.
Negreiros: “O governo Celina/Ibaneis é uma gestão de muitas entregas e obras, entre elas o Túnel Rei Pelé e os viadutos do Recanto das Emas e o do Jardim Botânico”
Em um eventual quinto mandato, pretende disputar a presidência da CLDF?
Isso depende de vários fatores. A presidência é uma conjuntura que depende também do governo, porque existe articulação da base. Eu não tenho vaidade, mas estou pronto para assumir qualquer missão aqui nesta Casa. Mas a gente não sabe nem quem vai estar aqui no ano que vem. Cada coisa no seu tempo. Certamente, dentro da articulação da base aliada, eu vou estar dentro, de uma forma ou de outra.
Fonte: Jornal Brasília Capital, por Tácido Rodrigues.


